sábado, 5 de fevereiro de 2011

Filosofia e Linguagem

Filosofia e Linguagem
Abordar o tema referente à Linguagem adentra-se na complexidade que é este instrumento. Sabe-se da multiplicidade de seu uso, mas dentro deste tema se abordará a linguagem vista na filosofia de uma forma menos dogmática, formativa, para uma abordagem mais moderna das diferentes funções da linguagem.
Dentre as diversas abordagens da linguagem, escolhemos a “ambiguidade” por trazer vertentes semelhantes, tanto na área de Língua Portuguesa como na Filosofia, e por ser uma das diferentes maneiras de se expor os argumentos.
Ser ambíguo é possibilitar mais de um sentido a uma mensagem ou informação, é a falta de clareza que fica evidente no texto, seja ele oral ou escrito. Na Literatura temos a ambigüidade como um vício de linguagem, e é considerado erro gramatical, pois se trata do um uso incorreto dos elementos morfológicos. Na Filosofia, ela é vista como um erro de raciocínio, um erro lógico.
Como nosso interesse é tratar a linguagem no âmbito filosófico, abordaremos, então, a ambiguidade como “Falácia”.

FALÁCIAS DE AMBIGUIDADE

FALÁCIAS DE AMBIGUIDADE

As falácias são geradas pelo equívoco de raciocínio, falta de clareza no uso de uma frase ou palavra que gera o erro lógico e que pode ter força psicológica persuasiva, sendo, entretanto, um simples engano gerado da concatenação de suas proposições – e muitas vezes até produzindo equívocos epistemológicos. A palavra ou frase pode ser ambígua, caso em que tem mais de um sentido distinto, ou a palavra ou frase pode ser vaga, ou seja, sem um sentido distinto.
Segundo a filosofia, as falácias de ambigüidade se dividem em:

  • Equívoco

A mesma palavra pode ser usada com dois significados diferentes.
Exemplos:
  1. Criminalidade é ilegalidade. O julgamento de um roubo ou assassínio são ações criminais. Os julgamentos de roubos e assassínios são designados de ações criminais. Logo, os julgamentos de roubos e assassínios são ilegais. (Exemplo retirado de Copi.)
  2. Os assassinos de crianças são desumanos. Portanto, os humanos não matam crianças. (O argumento joga com os significados moral e descritivo de 'humano')
  3. Para ser grande ou pequeno um objeto tem, primeiro, de ser. Logo, o ser do objeto surgiu primeiro. (Jogo com os significados lógico e físico de "ser")
Prova: Identifique a palavra que é usada mais de uma vez. Depois, mostre que a palavra surge com diferentes definições, adequadas num dos seus usos e inadequadas noutros.

  • Anfibologia

Uma anfibologia ocorre quando a construção da frase permite atribuir-lhe diferentes significados.
Exemplos:
  1. No teu emprego todos gostam de um carro. Portanto, há um carro muito especial. (Todos gostam de um carro qualquer ou do mesmo carro?)
  2. O Oráculo de Delfos disse a Creso, rei da Lídia, que “se Creso declarar guerra à Pérsia, destruirá um reino poderoso”. (O Oráculo não disse que seria o seu próprio reino...)
Prova: Evidencie a ambiguidade da frase, mostrando que pode receber diferentes interpretações.

  • Ênfase
A ênfase é usada para sugerir uma proposição diferente daquela que, de fato, é expressa. Esse tipo de falácia é, amiúde, mais flagrante em tablóides sensacionalistas.
Exemplos:
  1. A ex-namorada, procurando vingar-se do capitão, escreveu no jornal: "Hoje, o capitão estava sóbrio". [Ela sugere, com a ênfase, que habitualmente o capitão está bêbado. (Copi, p. 117)].
  2. Revolução na França é temida pelas autoridades (o termo “temida” coloca em saia justa as autoridades, visto que não fica claro de que forma se dá o temor, ou se de forma preventiva ou medrosa).
  • Composição
Aplica-se a dois tipos de argumentos inválidos estritamente relacionados entre si. O primeiro é descrito como raciocinar falaciosamente a partir das propriedades das partes de um todo até às propriedades do próprio todo; o segundo é estritamente paralelo ao que se acaba de descrever, ou seja, o raciocínio falacioso parte das propriedades possuídas por elementos ou membros individuais de uma coleção para as propriedades possuídas pela coleção ou totalidade desses elementos (é como se pensar partir de um raciocínio indutivo para o dedutivo, e vice-versa, ou, mais ainda, da generalização para a particularização ou, de modo figurativo, da universalidade para a contingência, e assim reciprocamente).
Exemplos:
  1. Todas as partes de uma certa máquina são leves no peso, portanto a máquina “como um todo” é também leve no peso ( o erro se manifesta quando pensamos que uma máquina muito pesada não pode se constituir de muitas peças leves).

  • Divisão
É o inverso da falácia de COMPOSIÇÃO. Apresenta-se nela a mesma confusão, mas a inferência se desenvolve na direção oposta.  Um pouco complicado para distingui-las, mas não seria adequado considerar isso uma atarefa impossível. O primeiro engano da falácia de DIVISÃO considera que o que vale coletivamente deve valer individualmente, assim como o segundo engano, em sentido inverso, quando se argumenta a partir das propriedades de uma coleção de elementos para as propriedades dos mesmos elementos.
Exemplos:

                1.  Se uma certa empresa é muito importante, então o senhor Doe, que é um de seus funcionários, é muito importante.
                2.   Os cães são comuns. Os rhodesians são cães. Logo, os rhodesians são comuns (sabendo-se que a raça é obviamente rara).

Enfim, não nos deteremos em detalhes, apenas devemos observar os equívocos ambíguos cometidos na composição lógica dos enunciados, e isto será tratado em nossa avaliação. Que tal se propor a um provocante e inteligente desafio?


Referência: Irving M. Copi - Introdução a Lógica/Ed. Mestre Jou(1974)

AVALIAÇÃO:

Nossa avaliação será composta de perguntas e respostas. Para cada resposta certa, nada mais merecedor do que dois gratificantes pontos. Findo o ciclo de perguntas e respostas, o nosso intrépido desafiado poderá computar sua pontuação através dos resultados que serão revelados no final da tarefa.
Boa sorte!

Identifique apenas as falácias de ambigüidade, se houver:

a)     Estabelecer o mais rapidamente possível uma estrutura salarial adequada em cada indústria é a primeira condição para controlar uma barganha competitiva; mas não há motivo para que esse processo fique por aí. O que é bom para cada indústria, dificilmente pode ser mau para a economia como um todo.

b)     Os testes psicológicos estabeleceram que a preocupação de Sr. Magalhães com o dinheiro era acima do normal e que a preocupação da Srª. Magalhães era abaixo do normal. Segue-se que o Sr. Magalhães gosta mais de dinheiro do que sua esposa. Logo, o casamento deles não tem muitas probabilidades de durar, pois como pode um homem suportar uma mulher se ele prefere o dinheiro a ela?

c)      Os cães são carnívoros. Os labradores são cães. Logo, os labradores são carnívoros.

d)     Acontecimentos improváveis dão-se quase todos os dias, mas o que acontece quase todos os dias é um acontecimento muito provável. Portanto, os acontecimentos improváveis são acontecimentos muito prováveis.

e)     Cada fabricante está perfeitamente livre para fixar seu próprio preço no artigo que produz, então, nada há de errado se todos os fabricantes se reunirem para fixar os preços dos artigos produzidos por todos eles.

f)        Normalmente, o que é notícia não é boa notícia. As ameaças de insurgências não têm sido notícias. Portanto, as ameaças insurgentes são boas notícias, já que o que não é notícia é boa notícia.

g)     Os homens são mortais. Stanley é um homem. Logo, Stanley é mortal.

Respostas:
a)     Falácia de ambigüidade.....................................2 pts
b)     Falácia de ambiguidade.....................................2 pts
c)      Raciocínio válido..................................................0 pt
d)     Falácia de ambigüidade.....................................2 pts
e)     Falácia de ambigüidade.....................................2 pts
f)        Falácia de ambigüidade.....................................2pts
g)     Raciocínio válido...................................................0 pt